Num momento em que grande número de empresas do sector passa por um período complexo na sua atividade, a CEFAMOL organizou, dia 19 de janeiro, um debate centrado em duas questões essenciais no momento atual: por um lado, ‘o financiamento e a capitalização na indústria de moldes’ e, por outro, ‘a diversificação de modelos de financiamento em PME’. Esta primeira sessão dos Encontros da Indústria de Moldes de 2023, que encheu por completo o auditório do Centro Empresarial da Marinha Grande, com intervenções e painéis de debate que integraram diversos especialistas da área financeira, bem como empresas do sector.
Para além do tradicional financiamento bancário, foram elencadas possíveis soluções para apoiar as empresas nas áreas de financiamento e capitalização, como o recurso à entrada de capital exterior, seja através de fundos de investimento, seja com recurso ao mercado de capitais ou à criação de linhas de apoio desde que sejam adequadas às especificidades desta indústria. Uma das conclusões reuniu unanimidade dos oradores: é fundamental que as empresas diversifiquem as suas fontes de financiamento.
João Faustino, Presidente da CEFAMOL, considerou, na abertura da sessão, e em jeito de contextualização da situação atual, que “estes últimos dois anos não foram fáceis e as empresas estão a passar por um período complicado devido, sobretudo, a falta de liquidez”.
Um dos problemas é, para João Paulo Marques, da consultora CFA, a limitação imposta pela dimensão das empresas do sector. Explicou que a indústria de moldes é constituída, maioritariamente, por pequenas empresas. “Cerca de 70 % dos produtores de moldes faturam menos de um milhão de euros e têm 50 ou menos trabalhadores”, salientou, considerando que isto não lhes permite ter capacidade negocial com os clientes, por um lado, e atratividade para possíveis investidores externos, por outro. Lembrou ainda que muito do financiamento das empresas está relacionado com o endividamento que, revelou, ronda cerca de 30 a 33 %. “Muitas empresas têm, até, endividamento na ordem dos 35 a 40 %”, acrescentou.
Ou seja, “são empresas pequenas com elevado endividamento e modelos de gestão muito assentes no empresário que é também o criador, o dono, o gestor, o financeiro e até o comercial”.
Para João Paulo Marques, “o modelo foi, até agora interessante, mas o mercado está a mudar e é preciso uma gestão mais elaborada”.
No seu entender, “as empresas deviam abrir portas a conselheiros exteriores ou administradores não executivos para ter uma visão mais alargada da realidade e do negócio”. É que, enfatizou, “as empresas crescem, necessitam de mais capital para investir, seja para o processo de produção, seja para o fundo de maneio que, neste setor, é fulcral”. Por isso, a solução pode não residir, apenas, no sistema mais tradicional de financiamento – os bancos – mas também com outro tipo de fontes de financiamento. E desafiou as empresas a olhar para questões como a abertura de capital, as fusões ou mesmo parcerias numa lógica de investimento.
No painel de debate que se seguiu, moderado por José Carlos Gomes, do grupo GLN, o consultor Luís Pinto, da Vitis Consulting, considerou que as empresas têm interesse nestes modelos alternativos de financiamento e, adiantou, “acredito que estão disponíveis – e até desejosas - de encontrar uma solução”.
Estes financiadores podem ser, desde potenciais parceiros, como fundos ou outras empresas da mesma área, ou de sectores diversos, e até mesmo clientes. Mas isto não invalida, acentuou, as medidas de apoio estatal. No seu entender, “os fundos poderão não ser o mais adequado, tendo em conta a experiência já conhecida que, aparentemente, não fez prevalecer o interesse do setor, até porque se sustentam numa visão a muito curto prazo”. A solução passa por investidores que olhem para a questão numa lógica de longo prazo, defendeu.
“Hoje, as empresas demoram a receber o que produzem”, salientou, considerando que seria importante a criação de linhas de apoio desde que “preparadas para a realidade dos moldes”. Mas, sustentou, “as que existem neste momento não respondem à necessidade das empresas do sector”.
Em relação à dimensão das empresas, Luís Pinto considera que para alcançar poder negocial terão, de facto, de criar outra escala. No entanto, defende que a “a dimensão das empresas portuguesas evitou que acontecesse em Portugal o que aconteceu noutros países da Europa, onde os moldes terminaram”. É que “as empresas portuguesas, pela sua dimensão mais reduzida, são maleáveis e resistem”. Para além disso, a dimensão permite também que, apesar de “não estarem formalmente conectadas, as empresas conseguem trabalhar em rede, o que é uma grande vantagem”.
Sónia Calado, da DRT, afirmou ver com bons olhos a abertura de capital a fundos como solução para as dificuldades de tesouraria das empresas. Mas advertiu: “mas não com estes fundos que conhecemos e que, de alguma forma, já o fizeram em empresas do sector. Ou seja, uma solução que não esteja centrada na compra de capital, mas antes no reforço de capital”. E, adiantou, se a opção fosse a criação de fundos com garantias do Estado e duração de longo prazo, poderiam “ser uma real possibilidade de solução”.
As empresas, lembra, “estão muito descapitalizadas e endividadas, depois de anos de arrefecimento da indústria automóvel, da pandemia de Covid e das consequências da guerra na Ucrânia”. E uma dessas consequências, frisou, é difícil de ultrapassar: “o preço dos moldes baixou”. Logo, adianta, “as empresas não têm forma de fazer refletir no preço final o aumento dos custos de produção”. E isto porque, salientou, “não estamos sozinhos no mundo. E países como a Itália, por exemplo, têm o Estado a apoiar, com linhas especificas destinadas aos moldes, enquanto a Alemanha também apoia as suas empresas”. Por isso, defende, “devia haver em Portugal políticas estratégicas para este sector como há nos outros países, que assegurassem financiamento às encomendas, mas também seguros de crédito eficazes”.
Por último, sugeriu a criação no seio da CEFAMOL um “grupo de trabalho para estudar a criação de algo do género de um agrupamento complementar de empresas” que possa avançar para o mercado de capitais, com a criação de obrigações convertíveis, que possam assegurar o financiamento das empresas.
‘A diversificação de modelos de financiamento’ esteve em destaque na segunda parte desta sessão, com um painel composto por oradores representando entidades bancárias e do mercado de capitais.
Isabel Ucha, da Euronext Lisbon (que gere a Bolsa de Valores em Portugal), explicou as vantagens que as empresas têm, se optarem por uma solução deste tipo como forma de financiamento. Os investidores, neste caso, “não têm ambição de gerir a empresa”. Logo, trata-se de uma solução que permite “ir buscar mais capital e manter a autonomia da gestão”. Em contrapartida, advertiu, implica uma maior abertura e transparência da empresa.
No espaço de debate moderado por Gonçalo Caetano, do grupo Simoldes, o consultor Ricardo Luz, da Gestluz, chamou a atenção para “uma realidade que as empresas nem sempre têm presente: os empresários acham que o mundo é como era, mas ou abrem capital, ou não conseguem competir, porque, hoje, é o mercado que dita as regras”.
Jorge Ferreira, CEO da empresa Palbit, salientou, por seu turno, que “o que faz os projetos é a rentabilidade das empresas”. Logo, essa tem de ser uma questão central para os empresários. E ao procurar um parceiro ou financiador, salientou ainda, “é preciso que consigamos dar a conhecer o projeto de sucesso que temos, o que a empresa acumulou ao longo dos anos de experiência e a sua ambição de crescimento”.
Presente no painel, Gonçalo Regalado, do Millennium BCP, enalteceu o carácter empreendedor das empresas do sector e assegurou que a entidade bancária que representa tem como prioridade “apoiar as empresas, de forma a assegurar o seu sucesso”. Há que haver projetos credíveis e sustentáveis e tais serão certamente apoiados.
O Encontro foi muito participado, contando com vários comentários e perguntas por parte da assistência, composta maioritariamente por empresários e quadros superiores das empresas. Esta iniciativa integra-se nos trabalhos de preparação do XI Congresso da Indústria de Moldes realizado em março na cidade de Oliveira de Azeméis.