Inovação. Mercados. Foram os principais temas em debate no decorrer de mais uma edição do Fórum TECH-i9 que, organizado pela CEFAMOL, teve lugar no dia 30 de junho. E em jeito de conclusão, os diversos oradores foram unânimes em considerar que para conseguir vencer os desafios que se colocam nessas duas questões, e noutras, as empresas têm de ser ágeis, mas também resilientes e cooperar para ganhar escala. João Faustino, Presidente da Direção da CEFAMOL, considerou, logo na abertura dos trabalhos, que o sector passa, neste momento, por um período crucial, que determinará o seu futuro. Aludindo ao ‘boom’ de projetos que as empresas nacionais estão a receber e que constitui um verdadeiro teste à sua capacidade de resposta e, ao mesmo tempo, o aumento dos preços das matérias-primas e custos de produção, o responsável defendeu que a indústria precisa de refletir, debater e partilhar opiniões sobre a forma como pode posicionar-se para que as empresas saiam mais fortalecidas. Um palco de excelência para fazer essa reflexão será, no seu entender, o Congresso da Indústria de Moldes, agendado para novembro próximo. “Desde o último congresso, há três anos, muito mudou e muito irá mudar até novembro. Estamos a passar por um período de enormes incertezas, que não nos deixam antever se o futuro será mais ou menos sombrio. Mas uma coisa sabemos: temos de ser resilientes”, defendeu, falando no Centro Empresarial da Marinha Grande, perante uma plateia composta por mais de sete dezenas de profissionais do sector. Seguiram-se dois painéis de debate. No primeiro, o tema em destaque foi ‘Inovação: como transformar ideias em resultados’. Na contextualização, Francisco Aguiar (Start-Up Leiria) afirmou que as empresas têm, constantemente, de se “reinventar, ser ágeis e perceber constantemente o que quer o cliente”. E a inovação surge como um meio para alcançar estes fatores. No seu entender, inovar começa com uma ideia. Mas é preciso criar condições para que ela surja, ou seja, estimular o sentido de criatividade. Adiantou que a inovação nem sempre é disruptiva. Por vezes, “pode ser gradual, como a melhoria do processo”. Salientando que, quando se fala em inovação pensa-se, de uma maneira geral, no processo produtivo, lembrou que “há outras formas de uma empresa inovar”. Exemplificou: “pode fazê-lo do lado do negócio”. Muitas vezes, enfatizou, “andamos a correr atrás dos resultados e não percebemos que temos de inovar processo e o produto. Temos de antecipar o futuro sob pena de deixar de ter negócio”. Empresas ágeis E olhar para o negócio implica ver a realidade envolvente. Os desafios: sejam tecnológicos, sejam de mudanças abruptas na sociedade (como o caso da guerra na Ucrânia) ou mesmo a antecipação da tendência de mercado e do desejo do cliente. Além disso, salientou, há ainda o desafio da sustentabilidade. Uma outra questão que considerou fulcral para o futuro das empresas é a sua cultura organizacional, que se reflete, por exemplo nas dificuldades de recrutar e reter pessoas. “É preciso perceber a razão disto acontecer e o que mudar”, defendeu. Para isso, é imperativo que as empresas consigam antecipar o futuro. “O peso do passado impede-nos de avançar e viver apenas no presente é limitador. Temos de nos colocar no futuro, conseguir definir cenários para pensar como vais ser daqui a 20 anos”, explicou. E o que tem tudo isto a ver com inovação? No seu entendimento, tudo. “É preciso ter ideias para inovar, cultivando o bem-estar e mindset criativo. Isso torna as empresas mais ágeis e disponíveis para inovar”, considerou, adiantando que o caminho é apostar numa “cultura de inovação”. Sublinhando que o acesso a tecnologias é cada vez mais fácil, considerou que, pelo contrário, os recursos humanos são o mais complexo. Mas é neles que as empresas têm de apostar, criando condições para que o conhecimento da organização não esteja apenas na cabeça dos seus colaboradores. Isso, salientou, “é muito arriscado”. Moderada por Victor Neto (Universidade de Aveiro), seguiu-se uma interessante partilha de opiniões e experiências sobre a forma como as empresas veem a inovação. Guida Figueiredo (Carfi) defendeu que inovar implica uma cultura empresarial que o valorize, como forma de adaptação às mudanças que vão surgindo. No caso da sua empresa, explicou, a inovação está presente, de forma consistente, desde 2008. A sua vantagem, explicou, “é que se transforma em resultados e lucro para a organização”. Mas para que tal aconteça, defendeu ser fundamental “ter um processo e sistema de gestão integrada da inovação, que abranja todos os degraus da organização”. Carlos Teixeira (Cheto) explicou que o espírito de mudança e inovação é algo que está presente, diariamente, por toda a sua empresa, que, sublinhou, com cerca de dez anos de atividade é ainda bastante jovem. No seu caso, e ao contrário dos produtores de moldes, fabrica um produto (máquinas para a indústria) e, por isso, tem desenvolvida uma cultura de inovação, “mas com respeito pela posição de cada um”. Destacou o importante papel que representam as escolas e os centros tecnológicos que, no seu entender, “são uma ajuda fundamental para a indústria”, ao colocar no mercado pessoas qualificadas com “novas ideias e vontade de inovar”. Começando por sublinhar que “nem sempre é fácil ter ideias que resultem em projetos de inovação”, Pedro Pereira (SET) defendeu que é fundamental existir uma cultura de inovação. No caso do Grupo Iberomoldes, explicou, a inovação é um dos pilares do negócio desde a década de 1990. As várias empresas do grupo têm participado, de forma consistente, em projetos de inovação, integrando consórcios com outras empresas e entidades. Para que isto aconteça, considerou, é fundamental “motivar colaboradores e estimular a empresa para a inovação”. “Mas não esqueçamos que o propósito da empresa é gerar lucro. Por isso, é preciso ter claro o que queremos atingir com o projeto. Se não contribui para evoluir, estamos a perder tempo”, defendeu. Cooperar para ganhar escala Os mercados estiveram em análise no segundo debate do Fórum. ‘Os novos requisitos de mercado: estamos preparados?’, foi o tema central da ação que, no início, contou com a presença de Tiago Ferreira (Tebis Consulting) que apresentou o resultado de um estudo sobre as tendências do sector junto dos fabricantes de moldes na Alemanha. De acordo com o documento, cerca de 50% das empresas alemãs está otimista em relação ao volume de encomendas que classifica como ‘bom ou muito bom’, apontando os sectores da medicina e automóvel como principais clientes. O ano passado, lembrou, no mesmo inquérito, 70% dos inquiridos olhavam com reservas para esta questão. No que diz respeito aos preços dos moldes, destacou que apenas um quarto das empresas ouvidas no estudo espera um recuo ainda maior. A maioria acredita que se manterão ou subirão. Os alemães consideram ainda ser necessário melhorar os tempos de produção em 10% para alcançar competitividade, bem como a redução das margens de lucro para uma melhor eficiência. Nos sectores de maior crescimento, a medicina lidera, seguida do automóvel e a embalagem ganha relevância com a questão da sustentabilidade e a introdução de novos de materiais. O sector aeronáutico surge no final da lista das prioridades dos produtores alemães. Para os alemães, os fatores-chave da competitividade são eficiência, estratégia (modelo de negócio) e profissionalização das vendas. A diferenciação tecnológica é também apontada por muitos. Já a preocupação com a sustentabilidade está no final da lista. Quanto à participação em projetos de I&D e inovação, apenas 30% alegam fazê-lo regularmente. E os modelos de negócio alternativos, com o fabricante mais próximo do cliente, auxiliando no desenvolvimento do produto, são apontados como os fatores de sucesso do futuro do sector. Com moderação de José Morais (Lexus Consultores), seguiu-se o espaço de debate, no qual os oradores teceram comentários ao estudo apresentado e expressaram, também, a sua opinião sobre as tendências dos mercados. Nuno Cipriano (Vangest), comentando os resultados do estudo, considerou que a eficiência “é uma necessidade que temos todos”. E, sublinhou, esta não passa, apenas, pela rentabilização das máquinas. “É preciso ver como ser mais rápido, resistir e preparar o futuro”, considerou. Na sua opinião, e apontando o tema para os mercados, a diferenciação das empresas portuguesas deve fazer-se “pelo serviço que prestam e este tem de ser ‘premium’, porque o cliente tem de estar disposto a pagar pela qualidade”. Já Valdemiro Teixeira (Moldoeste) considerou que as tecnologias ajudam a ganhar eficiência e rentabilidade. Mas, no seu entender, o verdadeiro desafio das empresas nacionais está “na pouca comunicação”. “Nunca falámos tão pouco uns com os outros como atualmente. E esta é uma questão estrutural das empresas que temos de resolver”, afirmou, sublinhando considerar essencial que as empresas consigam cooperar para ganhar escala. No caso dos mercados, é preciso repensar métodos e processos, defendeu. “Hoje, o cliente vê o preço. Não percebe nada de moldes. E se falha alguma coisa, isso põe em causa a relação com o fornecedor, por isso devemos apostar na excelência”, afirmou, adiantando que, no seu entendimento, não haverá necessidade de diversificar geograficamente os mercados. “Creio que não devemos inventar muito. Os nossos mercados são os de sempre: os tradicionais”, explicou. Advertiu ainda para a necessidade de olhar de outra forma para a nova geração. “Temos de ter respeito pelos jovens empresários e os novos projetos que estão hoje a surgir e que vão ser o nosso futuro. Não podemos pôr-lhes travão; pelo contrário, temos de cooperar”. Para Paulo Ferreira Pinto (Mold World), a tecnologia só por si não é suficiente para assegurar o bom resultado da empresa. Para além de ser necessário rentabilizar os equipamentos, considerou ser também imperioso apostar em comunicação, recursos e análises mais eficientes e eficazes. Destacando que, atualmente, a prioridade dos clientes é o preço, defendeu ser necessário incrementar a aposta na imagem do sector. “Há uma questão crítica – a nossa escala - que pode ser resolvida pela criação de redes entre empresas”, afirmou, defendendo “mais cooperação, de forma a ter economia de escala não apenas nos mercados, mas também na criação de estruturas no sector”. “Não temos massa crítica para influenciar os mercados. Por isso, esperamos, vamos acompanhando e procurando ir de encontro ao mercado. Não temos mercado em casa, como a Alemanha, nem nunca beneficiámos disso. Logo, o que deve ser melhorado é a forma como chegamos aos mercados, ou seja, devemos apostar mais no marketing”, salientou.