Repensar os modelos de negócio, ganhar escala, diversificar mercados e fontes de financiamento foram alguns dos desafios identificados no seminário ‘Análise Competitiva e Financiamento na Indústria de Moldes’, promovido pela CEFAMOL, no dia 5 de novembro, na Batalha. A iniciativa, realizada no âmbito do projeto GEST.IM – Estratégia, Sustentabilidade e Transformação da Indústria de Moldes, reuniu mais de três dezenas de profissionais do setor.
A necessidade de uma transformação estrutural da indústria, num contexto de forte exposição internacional, pressão sobre a rentabilidade e crescentes exigências de capital, esteve no centro das intervenções de Luís Pinto, da VITIS, e Eduarda Ramalho, da RTGeste. Ambos defenderam uma abordagem mais estratégica à competitividade, à gestão e ao financiamento das empresas.
Na apresentação do estudo ‘Análise Competitiva da Indústria de Moldes’, Luís Pinto analisou a evolução económica e financeira do setor entre 2019 e 2024, destacando uma redução do número de empresas, de 606 para 514, e do emprego, de cerca de 11 mil para nove mil trabalhadores. Também a rentabilidade sofreu uma quebra significativa, com resultados líquidos negativos em 2020 e 2021, tendo a recuperação dos anos seguintes ficado aquém dos níveis anteriores a 2019.
Nas exportações, 2024 registou uma recuperação, atingindo os 621 milhões de euros, face aos 498 milhões de 2021. Ainda assim, o orador alertou para a necessidade de interpretar estes valores tendo em conta os longos ciclos de produção da indústria, em que a entrega do molde e o respetivo registo das exportações podem ocorrer vários meses depois do início do projeto.
Com mais de 80% da atividade dependente dos mercados externos e uma forte concentração no mercado europeu, a indústria enfrenta, no seu entender, uma fase de maturidade que exige novas respostas. Manter o atual posicionamento e a dependência dos mercados tradicionais poderá comprometer a evolução das exportações. A solução passa por desenvolver capacidades comerciais, diversificar mercados e setores clientes, subir na cadeia de valor e encontrar novos modelos de negócio. “As empresas não podem competir pelo custo”, advertiu.
Ganhar escala
A autonomia financeira, que se situava nos 36% em 2024, e as necessidades de financiamento de curto prazo foram outros dos aspetos destacados. Em média, cada empresa recorre à banca em cerca de 500 mil euros anuais para assegurar a atividade operacional, nomeadamente a aquisição de materiais e o financiamento dos longos ciclos de produção.
Perante este cenário, Luís Pinto apontou diferentes caminhos para reforçar a competitividade: ganhar escala através de estruturas empresariais de maior dimensão, apostar na hiperespecialização e em nichos de mercado, reforçar a colaboração entre empresas e explorar novas oportunidades de negócio. Destacou igualmente a importância do capital humano, da renovação de competências e da transformação digital, bem como de uma maior articulação entre empresas, clientes, fornecedores, universidades e entidades do sistema científico e tecnológico.
A subida na cadeia de valor e a exploração de modelos como o mold as a service foram também identificadas como oportunidades para evoluir o posicionamento da indústria. No essencial, defendeu, é necessário assegurar maior rentabilidade estrutural, profissionalizar a gestão e criar condições financeiras para investir em tecnologia e garantir a própria produção.
Melhor financiamento
A intervenção de Eduarda Ramalho, da RTGeste, centrou-se no estudo ‘Fontes Alternativas de Financiamento e Capitalização na Indústria de Moldes’. A especialista sublinhou que “o desafio para as empresas não é, apenas, obter financiamento, mas obter melhor financiamento”, defendendo que os instrumentos financeiros devem estar alinhados com as necessidades de liquidez, investimento e crescimento de cada organização.
O estudo, que incluiu a auscultação de 23 empresas do setor, revelou uma forte dependência das soluções tradicionais: mais de 80% recorrem a empréstimos bancários como principal fonte de financiamento e dez empresas não dispõem de uma estratégia formal nesta matéria. Apesar de conhecerem outras possibilidades, muitas continuam a privilegiar os instrumentos habituais.
Para contrariar esta realidade, Eduarda Ramalho apresentou alternativas como algumas linhas do Banco Português de Fomento, o crowdlending e o crowdfactoring, que poderão permitir soluções mais ajustadas às necessidades e características de cada empresa.
A diversificação do financiamento exige, contudo, preparação. A realização de um diagnóstico financeiro, a organização da informação económica, a elaboração de planos de negócio e projeções financeiras, bem como o reforço das práticas de governance, são condições importantes para melhorar a capacidade de acesso a diferentes instrumentos.
A recomendação passou, assim, por integrar o financiamento na estratégia global das empresas, em vez de o encarar apenas como uma resposta pontual a necessidades de tesouraria ou investimento. Neste processo, a CEFAMOL poderá assumir um papel relevante na divulgação de conhecimento e no apoio à preparação das empresas para decisões financeiras mais informadas.
Os dois estudos apresentados serão disponibilizados pela CEFAMOL às empresas, constituindo uma base de reflexão e apoio à identificação de oportunidades de transformação, reforço da competitividade e sustentabilidade financeira da indústria de moldes.